{"id":67,"date":"2022-07-23T15:39:06","date_gmt":"2022-07-23T15:39:06","guid":{"rendered":"https:\/\/picumah.com\/marcapasso\/?p=67"},"modified":"2025-06-27T16:18:14","modified_gmt":"2025-06-27T16:18:14","slug":"sobre-vivencias-de-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/picumah.com\/marcapasso\/sobre-vivencias-de-amor\/","title":{"rendered":"Sobre viv\u00eancias DE AMOR"},"content":{"rendered":"<p>Larissa Amorim Borges<\/p>\n<p><em>O presente texto \u00e9 um registro breve de trechos compartilhados por mulheres diversas nas<\/em><br \/>\n<em>rodas de conversa realizadas nos ensaios abertos do espet\u00e1culo Marca-passo em julho e<\/em><br \/>\n<em>agosto de 2022. Por trazer elementos sens\u00edveis para todas n\u00f3s, \u00e9 de algum modo, uma<\/em><br \/>\n<em>escreviv\u00eancia coletiva de mulheres negras nas encruzilhadas da vida, entre corpos diversos<\/em><br \/>\n<em>e universos subjetivos complexos, nas contradi\u00e7\u00f5es entre amor, desamor, n\u00e3o amor e Auto<\/em><br \/>\n<em>amor.<\/em><\/p>\n<p>Essa noite nos reunimos no cora\u00e7\u00e3o da Periferia para falar daquilo que merece ter<br \/>\ncentralidade em nossas vidas: o amor. Marca-passo de\/ com Suelen Sampaio hoje calibrou<br \/>\no cora\u00e7\u00e3o das Mulheres da Quebrada. Gerou movimentos que contribu\u00edram para que os<br \/>\ncora\u00e7\u00f5es de todas n\u00f3s pudessem manter o ritmo, encontrar um novo ritmo, reconhecer o<br \/>\npr\u00f3prio ritmo\u2026 Foi incr\u00edvel.<\/p>\n<p>Foi poss\u00edvel perceber os olhares, os suspiros, no sil\u00eancio sorrisos e nas l\u00e1grimas discretas.<br \/>\nAqueles movimentos corporais provocaram movimentos subjetivos em cada uma delas. Da<br \/>\nmais nova a mais velha todas se identificar em algum momento com as tentativas de Amar<br \/>\ne ser Amada.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do amor, tijolo por tijolo, na edifica\u00e7\u00e3o de um territ\u00f3rio pr\u00f3prio onde o afeto<br \/>\npode estar presente de formas diversas e surpreendentes. E quem disse que os tijolos s\u00e3o<br \/>\nfixos? Eles s\u00e3o vivos, tem mem\u00f3ria, sustentam o movimento do qual fazem parte.<br \/>\nT\u00f4 aqui pensando no amor. No amor, no desamor, na falta do Amor, no desejo de amar e<br \/>\nser amada \u2026 Quantas vezes tentei\u2026 ? Quantas tentativas frustradas \u2026 ? Quantas<br \/>\ntentativas? Quantas tentativas bem sucedidas \u2026? Nem sei o que dizer\u2026 \u00e0s vezes (respiro<br \/>\npausa)<br \/>\nComo a lenda sobre um tesouro pirata escondido em algum lugar do mapa, rodeado de<br \/>\narmadilhas e surpresas.<\/p>\n<p>Embora nem todo mundo consiga perceber o amor na periferia tem centralidade. A busca<br \/>\npelos amores, como a busca por um grande tesouro que n\u00e3o temos a certeza de existir,<br \/>\nmas que desejamos que exista. Buscamos, buscamos, buscamos a vezes essa busca nos<br \/>\ndeixa cansadas, exaustas, dilacerada, com tantos assaltos e repeti\u00e7\u00f5es no caminho mas,<br \/>\nbuscamos. Estamos em busca porque mesmo sem ter provas grandiosas da sua exist\u00eancia,<br \/>\nsentimos que ele existe e que ele \u00e9 poss\u00edvel para n\u00f3s, mulheres pretas da periferia, ainda<br \/>\nque em um ato de insubmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Numa sociedade racista, machista, lgbtqifobica amar \u00e9 pode ser uma importante<br \/>\ntransgress\u00e3o. Assim, a exist\u00eancia do amor parece ser sentida e pressentida e desejada<br \/>\nmesmo e principalmente em contextos onde o Desamor ou n\u00e3o amor e a viol\u00eancia est\u00e3o<br \/>\nnaturalizados.<\/p>\n<p>A partir das falas das Mulheres da Quebrada \u00e9 poss\u00edvel perceber que o desejo de amar e<br \/>\nser amada existe ao tempo resiste as tentativas do sistema de provar a sua impossibilidade.<br \/>\nE (re)existe mesmo quando cansadas ou descrentes elas desintencificam a busca. Sentir-se<br \/>\ndigna de amor \u00e9 uma insubmiss\u00e3o praticada por elas.<\/p>\n<p>Sentir-se digna de amor \u00e9 uma insubmiss\u00e3o praticada por elas \u00e0s vezes ou todos os dias.<br \/>\nSer capaz de amar e de se amar \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o subvertida por elas \u00e0s vezes e todos os<br \/>\ndias ou quando poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A descoberta do auto amor, do amor pr\u00f3prio, do amor interior se apresenta como grande<br \/>\nconquista, como o \u00e1pice da experi\u00eancia de amar e ser amada, como ponte concreta para<br \/>\noutras realidades subjetivas e corporais.<\/p>\n<p>Os v\u00e1rios tipos de amor, os v\u00e1rios modos de Amar, a buscar dentro, a busca fora\u2026. amar a<br \/>\nsi, amar ao outro \u2026 amar os filhos, o marido, os pais, a m\u00e3e\u2026 amar a vida amar a si.<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 poss\u00edvel se identificar com um corpo de mulher negra que se move rumo ao amor<br \/>\nenfrentando os c\u00edclos de depress\u00e3o e viol\u00eancia que insistem em se repetir. Persistindo em<br \/>\nbuscar, encontrar e criar significados e sentidos para n\u00e3o morrer, sobreviver viver, renascer<br \/>\npara reviver para transcender nas rela\u00e7\u00f5es e na vida.<\/p>\n<p>Mesmo diante do racismo, da morte, da humilha\u00e7\u00e3o, da viol\u00eancia dom\u00e9stica, mesmo com<br \/>\nisso, apesar disso e al\u00e9m disso, as mulheres da Periferia est\u00e3o aprendendo a se amar em<br \/>\nprimeira pessoa.<\/p>\n<p>\u201cMam\u00e3e, ela j\u00e1 t\u00e1 dan\u00e7ando !?\u201d Como falar de amor? Como construir nos nossos corpos<br \/>\numa experi\u00eancia de amor que n\u00e3o d\u00f3i? \u00c9 poss\u00edvel um amor que n\u00e3o d\u00f3i? \u00c9 poss\u00edvel amar<br \/>\nsem doer? Como voc\u00ea v\u00ea o amor? Como voc\u00ea percebe o amor? \u00c9 poss\u00edvel falar de amor?<br \/>\n\u00c9 poss\u00edvel falar de amor sem doer? Como viver o amor sem doer? ser\u00e1 que isso \u00e9<br \/>\nposs\u00edvel? Como recome\u00e7ar depois de um amor que d\u00f3i ? Como recome\u00e7ar depois do amor<br \/>\nque destr\u00f3i ? O que destr\u00f3i \u00e9 amor ou seria outra coisa que nomeamos de forma<br \/>\nequivocada?<\/p>\n<p>\u201cEu sinto muito orgulho de mim queria ser feliz mas j\u00e1 estava cansada e n\u00e3o queria ter que<br \/>\npassar por essas humilha\u00e7\u00f5es de novo a dan\u00e7a me fez eu me enxergar\u201d<br \/>\nO que o seu corpo tem falado sobre amor? O que o meu corpo tem falado sobre o amor?<br \/>\n\u201cAmor pra mim \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de algo.\u201d<\/p>\n<p>\u201d (\u2026) e a expectativa no meio do caminho\u2026 estava estava meio desanimada\u201d \u201cA gente \u00e9<br \/>\nque consente a gente coloca muito a expectativa no outro.\u201d<br \/>\n\u201cTeve uma hora que eu fiquei inquieta queria me levantar da cadeira queria me movimentar\u201d<br \/>\n\u201cTeve uma hora que eu me identifiquei\u201d<\/p>\n<p>Como se reconhecer dentro dessa hist\u00f3ria? \u201cO amor \u00e9 primeiro em n\u00f3s e depois no<br \/>\noutro.\u201d(\u2026) \u201cEla ainda n\u00e3o ama o espelho conheci uma menina que por causa da sua cor ela<br \/>\nainda n\u00e3o consegue se amar e n\u00e3o consegue se olhar no espelho\u201d<br \/>\n\u201cPerguntei para o meu filho o que ele sabia sobre suas ancestrais, e ele me disse: \u201cela<br \/>\n(minha av\u00f3) \u00e9 pior que ela (minha m\u00e3e).\u201d<\/p>\n<p>Ele se referia a situa\u00e7\u00f5es de dor e opress\u00e3o que elas haviam vivido e que haviam<br \/>\ntransmitido para as outras gera\u00e7\u00f5es, mas a hist\u00f3ria delas a presen\u00e7a delas n\u00e3o se limitava<br \/>\na essa dor e eu precisava mostrar isso para ele\u201d<\/p>\n<p>\u201cMinha m\u00e3e me diz eu te amo com comida. As vezes ela guarda a rapa do angu para mim,<br \/>\n\u00e0s vezes me d\u00e1 uma frutinha. Ela n\u00e3o faz isso com os meus irm\u00e3os, ela s\u00f3 faz isso comigo<br \/>\nagora que eu sou adulta, e cuido dela.\u201d<\/p>\n<p>Como voc\u00ea aprendeu a se amar?<\/p>\n<p>\u201cNamorei escondido sete anos e minha m\u00e3e Preto para ela\u2026\u201d ela conta de um amor que<br \/>\nviveu sete anos escondido e que agora tem mais 37 anos de casada mesmo diante das<br \/>\nexperi\u00eancias de reprodu\u00e7\u00e3o do racismo o relacionamento segue em frente e j\u00e1 outras<br \/>\npessoas negras na fam\u00edlia, como seu amado.<\/p>\n<p>O amor, o tr\u00e2nsito e a transmiss\u00e3o inter e transgeracional.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as estavam muito atentas, mas n\u00e3o quiseram falar. As adolescentes tamb\u00e9m n\u00e3o,<br \/>\nmas estavam atentas a tudo em especial a presen\u00e7a das M\u00e3es e o dialogar delas sobre t\u00e3o<br \/>\nprofunda intimidade pode ter feito os mais novos preferirem s\u00f3 ouvir com respeito carinho e<br \/>\nmuita intencionalidade.<\/p>\n<p>Ela contou que sobreviveu a um amor de morte que quase morreu mas decidiu se amar se<br \/>\npriorizar priorizar as filhas decidiu vencer o medo para escapar da morte e hoje vive outros<br \/>\namores poss\u00edveis mais vi\u00e1veis com mais vida.<\/p>\n<p>Ela relata que a sua hist\u00f3ria foi conhecida na favela. Sente orgulho de estar viva, bem<br \/>\ncuidada, bonita e feliz para contar sua pr\u00f3pria vers\u00e3o e para estrear novas edi\u00e7\u00f5es do ato<br \/>\nde Amar.<\/p>\n<p>\u201cA dan\u00e7a para mim foi como um espelho eu me identifiquei muitos momentos.\u201d<br \/>\n\u201cMeu choro ultimamente t\u00e1 s\u00f3 aqui dentro do peito.\u201d<br \/>\n\u201cO maior amor que vivi foi o amor por mim mesma, perdi uns quilos e conheci meu corpo,<br \/>\nmudei meu corpo. Fui ao m\u00e9dico, tomei uns rem\u00e9dios, emagreci, recuperei minha<br \/>\nautoestima.<\/p>\n<p>\u201cPercebi que se eu me amasse eu daria um fim naquela rela\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>\u201cQuem n\u00e3o tem uma hist\u00f3ria para contar?\u201d<\/p>\n<p>\u201cHoje o amor para mim \u00e9 estar em paz.\u201d<\/p>\n<p>Ouvi a hist\u00f3ria de cada uma dessas mulheres e tamb\u00e9m o seu sil\u00eancio tamb\u00e9m me fez<br \/>\npensar nas minhas tentativas de amar e ser amada me fez pensar na pot\u00eancia da<br \/>\nsubvers\u00e3o do imperativo de amar ao outro para construir prioritariamente um amor por mim.<br \/>\nO amor \u00e9 um investimento, uma busca, uma constru\u00e7\u00e3o. H\u00e1 constru\u00e7\u00f5es que precisam ser<br \/>\ndemolidas, a territ\u00f3rios que precisam ser ocupados.<\/p>\n<p>O amor para o povo mineiro \u00e9 como o mar. Ainda que formalmente ele esteja al\u00e9m de<br \/>\nnossas fronteiras n\u00f3s o buscamos. Vamos ao seu encontro. As vezes molhamos os p\u00e9s, as<br \/>\nvezes mergulhamos de corpo inteiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Larissa Amorim Borges O presente texto \u00e9 um registro breve de trechos compartilhados por mulheres diversas nas rodas de conversa realizadas nos ensaios abertos do espet\u00e1culo Marca-passo em julho e agosto de 2022. 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